
Tomie Ohtake pode ser considerada como uma das maiores artistas plásticas do Brasil. Não somente pela inovação, mas pela versatilidade de suas influências e pela intensidade de sua obra, estendida por mais de 50 anos. Suas fases também marcam novidades de matérias e de perspectivas, o que lhe dá uma pluralidade imprescindível para qualquer interessado em arte abstracionista. Ela iniciou sua carreira como pintora, entre os 39 e 40 anos de idade. Se comparada a certos artistas plásticos, esse começo pode até ser tardio. Mesmo assim, suas proposições estéticas e suas qualidades de pintura não foram comprometidas, pois deram às fases de sua obra variações de cores, de materiais e até de temas.
Ohtake nasceu em 1913, em Kyoto, no Japão e em 1936 veio para o Brasil, radicando-se e naturalizando-se neste país. Mas, sua infância vivida no Japão foi imprescindível como formadora de poética, o que resultou na mescla de influências, tanto do Oriente, como do Ocidente. Segundo alguns críticos, como Paulo Herkenhoff, Frederico Morais e Miguel Chaia, não será a forma japonista, tão presente no estilo de Van Gogh, que fluirá nas composições de Ohtake, mas a filosofia zen que procura sempre o equilíbrio de sentidos, assim como a poética dos haicais, que em poucas palavras e formas compactas exprimem e ou sugerem significados vários. Essa intensidade ocorre ainda maior, quando a pintora passa do Figurativismo ao Abstracionismo na década de 50.
O grande trunfo da autora, como técnica é a pincelada, pois com ela percebemos sua intencionalidade mais objetiva e disciplinada, que ao final da pintura, traz um grande convite à nossa subjetividade. É a fusão do pincel, com as cores e as formas, que transforma a tela num grande universo cósmico, visceral e até embrionário. O lirismo constituído pelo cromatismo de Tomie Ohtake está presente, mas sua construção dá-se de maneira regrada e cautelosa com os produtos da intencionalidade. Eis aí uma notabilidade de sua idéia. “Eu nunca pintei com o emocional. Sempre pintei mais friamente. É sempre colocando camada, camada, camada. Colocando muitas cores, camada, camada, até chegar onde eu quero” (OHTAKE, 2001, p 62).
A pincelada de Ohtake, não só representa uma característica sua, mas uma inovação no estilo de pintura ocidental. O compasso mais pausado e intervalado contrasta, por exemplo, com a maneira veloz na composição presente em movimentos como expressionismo, por exemplo. E para construir suas pintura, Ohtake altera a materialidade de suas telas, raspando parte dessas e procurando mais uma coloração além da dependência da tinta
[1]. Na década de 60, alguns de seus quadros resultam na adição de camadas sobre a figura, que propõem o engelhar pictórico e uma nova forma de solidez.
Em sua influência abstracionista, Tomie foge da materialidade e da representação de objetos convencionais. Sua pintura é mais sugestiva, incita a construção de arquétipos
[2], o que alimenta a subjetividade através do inconsciente. Não há a racionalidade das formas, nem a mecanização estética. Contrariamente, a introspecção e a soltura, são suas características. A confluência de perspectivas, onde tonalidades diferentes confundem os planos e fundos das telas são evidentes, principalmente nos anos 90. Seu cromatismo abarca cores foscas e vivas. Mas há quase sempre a variação de tons numa mesma composição. Desde os pretos mais fechados, a cinzas, azuis, ocres, vermelhos e brancos. E o degradê se presencia, não numa ordem de clareamento ou escurecimento óbvio, mas na troca de intensidades esparsas nas telas da artista, agregando inclusive manchas como parte intencional.
Na década de 70, Tomie inicia as composições abstratas entre curvas, elipses, círculos, cápsulas. É nessa fase que Frederico Morais sugere uma conexão com o erótico. Pelas formas criadas. Não um erótico concreto, mas a sensação erótica que é promovida pela complexidade de pintura e a ligação de sua forma, com o universo fisiológico e reprodutivo, uterino. “Entre as formas criadas pela artista, nas diversas etapas de sua obra, algumas podem ser vistas como eventualmente eróticas, permitindo analogias fálicas, vaginais, uterinas: fendas, furnas, grutas, pregas, púbis, ancas, línguas, formas rombudas, que buscam se aproximar do clitóris ou da glote, mas, ainda sim, mais alusivas que intencionalmente figuradas” (MORAIS, Apud: OHTAKE. 2001, p 143).
Outros críticos como Miguel Chaia associam a obra de Tomie Ohtake a representações cósmicas, principalmente a partir da década de 90. Surge uma ligação com o Universo, desde o macro ao microcosmo. Isso seria “alimentado” por Tomie valorizar a representação do vazio em sua obra. “Em Tomie, o vazio não representado e valorizado, por si só, enquanto expressão angustiante que traduz uma impossível conquista, mas sim como convivência de opostos, ordenando assim um dinâmico espaço pictórico” (CHAIA, Apud: OHTAKE, 2001. p 218). Similitudes ocorrem entre algumas pinturas e elementos do espaço sideral. Planetas, gases, astros; todos encontram algum entrelaçamento com a representação de Ohtake. Não somente o tempo é algo que não se exaure nas telas da artista. A sua visão de tempo é praticamente influenciada por nuances de Albert Einstein, pois Tomie já pintou simultaneamente duas telas, o que por sua vez ocasionou uma troca de atmosfera entre as duas. Além disso, o indivíduo se tornar sujeito diante das composições de Tomie Ohtake, pois sua concepção pictórica é um convite à reflexão do ser humano, algumas vezes até atraindo a idéia de inferioridade – não no sentido pejorativo – mas em conceber nossas origens, assim como nossas fragilidades.
BIBLIOGRAFIA
CHAIA, Miguel. A Dimensão Cósmica na Arte de Tomie Ohtake In: OHTAKE, Ricardo (org). Tomie Ohtake. São Paulo: Instituto Tomie Ohtake, 2001.
HERKENHOFF, Paulo. Tomie Ohtake. In: OHTAKE, Ricardo (org). Tomie Ohtake. São Paulo: Instituto Tomie Ohtake, 2001.
JUNG, C. G. Psicologia do Inconsciente. Tradução: Maria Luiza Appy. Petrópolis: Vozes. 2005.
MORAIS, Frederico. O Edifício de Formas. In: OHTAKE, Ricardo (org). Tomie Ohtake. São Paulo: Instituto Tomie Ohtake, 2001.
[1] “Em algumas pinturas dos anos 60, Ohtake raspa a camada branca monocromática que cobre a tela, para recuperar em sombras, a base de cor original. É necessário desconstruir o branco, abismovisual da luz absoluta. É como se, atingindo o excesso de luz, fosse urgente recuperar a presença da sombra para a definição do relevo do mundo” (HERKENHOFF, Apud: OTHAKE, 2001, p 63).
[2] A definição de arquétipo é intimamente remetida à Psicanálise e à Psicologia. Jung definiu de maneira clara à significação arquetípica e sua conexão com a psique: “(...) trata-se da camada mais profunda do inconsciente, onde jazem adormecidas as imagens humanas universais e originárias” (JUNG, 2005, p 57).